Insônia prejudica os vasos sanguíneos

14/09/2016 09:56

Resumo:
A privação de sono causa mudanças no metabolismo do colesterol, segundo estudo. De acordo com os resultados, esta privação a longo prazo pode contribuir para o desenvolvimento de doenças cardiovasculares.


A insônia tem sido associada com a ativação do sistema imunológico, inflamação, metabolismo de carboidratos e hormônios que regulam o apetite e saciedade.  Recentemente, pesquisadores da Universidade de Helsinke descobriram que a privação de sono também influencia no metabolismo do colesterol.
O estudo examinou o impacto da privação de sono acumulativo sobre o metabolismo do colesterol em termos de expressão gênica e níveis de lipídios no sangue. Através de métodos avançados, uma pequena amostra de sangue pode, simultaneamente, dar informações sobre a ativação de todos os genes, bem como as quantidades de centenas de diferentes metabólitos. Isto significa que é possível buscar novos fatores de regulação e vias metabólicas que participam de uma função específica no organismo.
"Neste caso, encontramos que a privação de sono pode afetar as funções do organismo, e que essas mudanças poderiam ser parcialmente responsáveis ​​pelo elevado risco para doenças cardiovasculares", explica Vilma Aho, pesquisadora do grupo de Medicina do Sono da equipe da Universidade de Helsinke.
O estudo demonstrou que os genes que participam da regulação do transporte de colesterol são menos ativos em pessoas que sofrem de insônia do que naqueles que têm uma qualidade de sono melhor e suficiente. Este resultado foi encontrado no experimento realizado à nível populacional com indução da privação de sono em laboratório controlado.
Ao analisar os diferentes metabolismos, os pesquisadores descobriram ainda que pessoas que sofrem de insônia tinham menos lipoproteínas de alta intensidade (HDL), vulgarmente conhecida como o “bom colesterol”, do que pessoas que dormiam suficientemente.
Juntamente com outros fatores de risco, estes resultados colaboram com a justificativa do aumento do risco de doença cardiovascular observado em pessoas que apresentam privação de sono e possibilita ainda compreender os mecanismos pelos quais a insônia eleva esse risco.
"Estes fatores contribuem para o aparecimento da aterosclerose, isto é, reações inflamatórias e alterações no metabolismo do colesterol, e é particularmente interessante que foram encontrados tanto no estudo experimental quando nos dados epidemiológicos," diz Aho.
Os resultados destacam a importância de dormir bem e seu impacto na saúde. Os pesquisadores enfatizam que a educação em saúde deve incidir sobre a importância de um bom sono, suficiente na prevenção de doenças comuns, além de uma alimentação saudável e exercício físico. Mesmo uma pequena redução do número de doenças ou até mesmo a probabilidade de adiar o aparecimento das mesmas já resultaria em economias de custo significativas para a sociedade em geral.
"O estudo experimental mostrou que apenas uma semana de sono insuficiente é o bastante para mudar a resposta imunológica do corpo e também o metabolismo. Nosso próximo objetivo é determinar quão pequena é esta restrição de sono, capaz de causar tais mudanças," refere Aho.


Desenvolvimento:

O grupo de pesquisa da equipe do sono da Universidade de Helsinke, liderado pelo Dr. Tarja Porkka-Heiskanen, está estudando o impacto da insônia na defesa imunológica e metabolismo, em particular o metabolismo lipídico (colesterol). Foi previamente estabelecido através de estudos epidemiológicos que as pessoas que dormem menos do que deveriam apresentam um risco maior de contrair doenças cardiovasculares, maior risco de mortalidade pelas mesmas, e uma mortalidade global mais elevada durante um período de tempo definido.
As doenças cardiovasculares são conhecidas por serem ligadas ao metabolismo lipídico e ao sistema imunológico. A restrição de sono gera um estado inflamatório de baixo grau no organismo, e isto pode contribuir para o maior risco da doença. O metabolismo dos carboidratos também sofre influência com a insônia, se alterando de tal forma a se assemelhar com o diabetes do tipo 2.
No entanto, o impacto de perda de sono sobre o metabolismo de lipídeos/colesterol exige ainda mais estudos.

Este estudo utilizou três conjuntos de dados:

Estudo experimental SR (n=21): experimento conduzido em cooperação com o Instituto Finlandês de Saúde Ocupacional, em laboratório com condições estritamente controladas, simulando uma semana de trabalho com o sono restrito.
DILGOM (Dieta, estilo de vida e determinantes genéticos da obesidade e síndrome metabólica, n=518): subconjunto do estudo da população nacional FINRISK, recolhido para servir a investigação sobre os fatores de risco para a síndrome metabólica.
Estudo de risco cardiovascular em jovens finlandeses (YFS, n=2221): estudo da população finlandesa que acompanhou o estilo de vida e saúde cardiovascular dos participantes desde a infância/ juventude. Foram usados ​​dados a partir de 2007, quando os participantes estavam entre as idades de 30 e 45 anos.

Estes conjuntos de dados foram usados ​​em cooperação com o Instituto Nacional de Saúde e Bem-estar e as universidades de Tampere e Turku, que eram responsáveis ​​pela sua recolha e análise. Análises metabolômicas foram conduzidas na Universidade de Oulu. O projeto de pesquisa também envolveu o Instituto Finlandês de Saúde Ocupacional e VTT Pesquisa Técnica do Centro de Finlândia.

Traduzido por Camila Marques, nutricionista certificada em mindfulness nutricional e colaboradora do Nutrição & Consciência.
 

Referência:
Vilma Aho, Hanna M. Ollila, et al. Prolonged sleep restriction induces changes in pathways involved in cholesterol metabolism and inflammatory responses. Scientific Reports, 2016; 6: 24828 DOI: 10.1038/srep24828.

Artigo original: https://www.sciencedaily.com/releases/2016/04/160422075156.htm#.VzNor6LjS44.email