A Transformação da Consciência através da Meditação

08/05/2015 14:55

Artigo apresentado no Congresso Internacional de Consciência em Salvador-2012

Dr. Marcelo Csermak Garcia

Especialista em técnicas meditativas com mais de 18 anos de prática em diversas vertentes. Mestre e doutorando em Ciências pelo departamento de Psicobiologia da UNIFESP. Estuda Neurociência da Meditação e suas diversas aplicações nos processos mentais. Professor no Brasil do Tergar Meditation Community.Membro do Centre for Mindful Eating.

Resumo

A meditação é um sistema milenar de autoconhecimento, auto observação e expansão da consciência. Sua prática remonta aos primórdios da humanidade. Ao longo dos séculos, o Ocidente tomou contato com estas práticas e hoje em dia utiliza-se de seus benefícios de forma recorrente, sendo um dos seus principais objetivos o aprimoramento da mente e do comportamento humano. A meditação é frequentemente utilizada como uma diretriz moral e ética, a medida que nos tornamos conscientes das nossa falhas e defeitos e criamos meios para corrigir e melhorar aspectos que outrora nunca tinham sido percebidos pela nossa falta de consciência interior. Uma vez a prática meditativa sendo colocada em execução, a possibilidades de nos tornarmos seres mais felizes, menos igorantes em relação à nossa verdadeira natureza, se fazem cada vez mais distantes. A meditação portante se configura em um importante meio de autorealização e expansão da consciência.

Palavras - chave: meditação, atenção, concentração, consciência

Durante toda a sua existência, o ser humano de alguma forma parou para se observar, e tentar se entender. Esta auto observação primeva, que exige necessariamente a sua atenção, a sua concentração, foi se aprimorando através dos tempos e de sua própria evolução como ser pensante e discernidor e através de ser humanos dedicados e diferenciados que humanidade conheceu, há cerca de 2500 anos a meditação foi acrescida e mais elaborada no que tange a um aprimoramento das técnicas já pré existentes, indo diretamente ao objetivo final que é a total descoberta de como a nossa mente e a nossa consciência poderiam atingir um estado de completa amplitude e liberação. 

A Meditação, muito contraposto ao que se tem difundido no Ocidente nos últimos anos, não é a suspensão dos pensamentos, mas sim uma completa percepção da sua natureza, uma observação atenta e initerrupta de como a nossa mente funciona, sendo assim, ela é em essência, a grande realização da autopercepção da nossa própria consciência.

A etimologia da palavra meditação é múltipla e passeia pela história da humanidade através de milhares de anos, onde invariavelmente poderemos referenciá-la de uma forma ou de outra em um processo de relaxamento corporal e físico, sendo um movimento da mente indo do exterior para o seu interior, levada e conduzida pela nossa atenção e concentração, proporcionando uma nova tomada de autoconsciência1. (Danucalov & Simões, 2006). Dentro das práticas meditativas, há um refinamento da observação. Você fica totalmente relaxado, e ao mesmo tempo você tem a nitidez da consciência, a força da inteligência. Seus sentidos tornam-se mais claros seus pensamentos não se obstruem, culminando em um processo de expansão da consciência que algumas tradições orientais chamam de “Clara Luz de Êxtase” 2(Alegria de Viver).

Podemos, entender que na verdade a meditação, na sua essência histórica e etimológica, representa a consciência da atenção, da concentração, da presença de pensamentos, emoções e atitudes, levando a pessoa a tornar-se mais consciente e atenta, a experimentar o que a mente está fazendo enquanto ela realiza alguma atividade, a estar junto com a própria mente e desenvolver o auto conhecimento e a consciência, com isto, observa-se os pensamentos, para que seu fluxo seja progressivamente reduzido, mas nunca extinguido, porque de fato isto jamais acontece. O que parece simples, é extremamente complexo para algumas pessoas, principalmente os ocidentais, tão ligados ao que pode acontecer e não ao que está acontecendo no momento presente, no aqui e agora 1(Danucalov & Simões, 2006).

A meditação tem como um dos seus objetivos purificar a mente das impurezas e perturbações, tais como os desejos sensoriais, raiva, má vontade, indolência, preocupações, inquietações e dúvidas, e cultivar qualidades como a concentração, atenção, inteligência, energia, a faculdade de análise, confiança, alegria, tranqüilidade e finalmente conduzir ao alcance da consciência e sabedoria máxima que é ver e compreender a natureza das coisas tal como elas na verdade são, sem deslumbre s equívocados, estabelecendo um contato ainda não experimentado pelos ser, onde a recém adquirida pureza da consciência testemunha as ações do Ego e se encontra além de todas as suas identificações, pois com passar do tempo e da prática, estabelecemos um contato com a nossa verdadeira natureza da mente e da nossa consciência, desnudando os véus das nossas imperfeições e nos conduzindo ao que chamamos de Eu Real. 

Ao longo de milhares de anos, temos identificado os diversos processos meditativos como um dos mais eficientes métodos de expansão da conciência, pois ela dirige-se diretamente à naturza do agente, a sua própria mente, que agora passa a ser atentamente observada, desmistificada e compreendida. A tomada de consciência é o agente que transporta as mensagens que formam a experiência do praticante. Assim, à medida que a base consciencional é estabelecida, o que auxilia a mente a despertar e a tornar-se mais reflexiva, observadora, sensível, o pensamento adquire então uma qualidade ainda não experimentada de profundidade. Somente esta profundidade experimentada dentro do processo meditativo prospectado pela nossa consciência é que torna a mente capaz de perceber a profundidade de toda a vida. 3(O Papel da Consciência na Meditação - Radha Burnie Burnierhttps://www.sociedadeteosofica.org.br/artigos.asp?item=789&idioma).

A mente que vive em superficialidades pode ver somente coisas sem importância. Ao aprofundarmos a percepção da consciência, chegamos à profunda interioridade das coisas, aos níveis ocultos e sutis da vida. E existe uma profundidade infinita na vida; seu significado não tem limites. A descoberta disto é através da meditação e sua culminância é sabedoria. 

A mente tem em sua natureza básica, a distração, a divagação, mas quanto mais ela aprende a se perceber, a se escutar, e isto é a base e essência para a correta técnica de meditação, mais a consciência se torna presente em todo o processo.

Então, por cuidadosa observação e escuta, o poder da consciência se expande. Ela começa a florescer, o que significa que se torna mais aberta ao que a vida está nos mostrando, é sensível em sua apreensão do que existe, e é necessário sensibilidade para descobrir aquilo que faz no seu mais profundo recôndito, que é o significado, a verdade oculta. Aprender a alcançar este nível de consciência é meditação, que é também uma forma de despertar o poder de se autoconhecer, de adquirir novas formas de consciência, para que assim, ela veja não somente o externo, mas também o interno; não somente o que é material, mas também o imaterial; não somente o grosseiro, mas também o sutil, e  definitivamente termos a possibilidade de um contato que julgávamos outrora perdido, a consciência de nossa divindidade.

Quando iniciamos o caminho da meditação, nós começamos a buscar a felicidade internamente, dentro dos nossos corações e de nossas mentes. Na medida em que nos familiarizamos com a mente e omodo como ela funciona, aos poucos vai ficando claro que a principal causa da ansiedade, da insatisfação e do sofrimento é a falta de conexão com a nossa verdadeira natureza de consciência. Em outras palavras, quando buscamos a felicidade fora de nós mesmos e fora do presente momento, nos tornamos cegos à tudo aquilo que temos e que somos.2(Alegria de viver)

 A consciência não pode ser clara e profunda quando existem fatores na mente que são destruidores desta sensibilidade e auto clareza, condições que obscurecem a percepção. A qualidade de nossos pensamentos, se destrutivos, ou se construtivos, salutares ou não, faz toda a diferença. Desejos sensoriais desequilibrados e perdidos na ignorância, aplicam força decisiva no obscurecimento da nossa tomada de consciência, sendo assim, torna-se  impossível ver corretamente as coisas como elas realmente são.  Uma doença é uma doença, você não vai morrer por isto, uma separação é uma separação, o tempo acalmará seu coração, uma dificuldade é apenas uma dificuldade, você proverá meios para mudar isto. Portanto, deve-se aprender a viver de maneira correta e trabalhar para purificar, através da observação e do entendimento, todas aquelas tendências que distorcem a mente, pois a base da meditação é um modo ético de vida. Violência, agressão, gula, ganância, desonestidade, etc., atuam como uma barreira à consciência clara e plena. Desta forma, a prática constante e atenta aos impulsos desregrados e sabotadores do Ego destreinado se faz necessária desde que se esteja realmente interessado em expandir os poderes da consciência num sentido mais profundo.
As práticas meditativas dão profunda ênfase nas qualidades mentais e nas virtudes geradoras e promotoras de um caráter e moralidade ímpares, sendo assim, constantemente somos incitados durantes estas práticas a trabalhar com afinco virtudes como generosidade, paciência, bondade amorosa, compaixão, alegria, perseverança, sabedoria, equilíbrio, equanimidade entre outras, tornado-se este um dos sistemas mais promissores de evolução consciencional4. Ela é uma ferramenta prática que nos ajuda a entrar em contato com a nossa verdadeira natureza, e ao descobrir uma sensação de bem estar e de contentamento que é imune aos altos e baixos do mundo ao nosso redor, o indivíduo se fortalece e passa ter uma consciência maior e mais aprimorada de sua verdadeira natureza de potencialidades e realizações na vida. Neste contexto, ela trabalha com as funções básicas da mente como a consciência atencional, os movimentos que vão em direção à felicidade e os movimentos que se distanciam do sofrimento, que todos nós experienciamos. 

Trabalhando estas qualidades da mente, nós gradualmente transformamos a nossa relação com as experiências do momento presente, aprendendo a nos aproximar de cada pensamento, emoção e experiência sensorial com afeto e aceitação incondicionais.

Aprendemos no exercício do sentar , respirar e observar, que não precisamos olhar além do momento presente para vivenciar a sabedoria, a compaixão e a pureza da nossa verdadeira natureza de consciência. Nós apenas precisamos fazer uma pausa para reconhecer o que sempre esteve presente em nossa frente. Este é um ponto crucial que a meditação nos proporciona, pois induz ao reconhecimento da nossa bondade básica no imediatismo do momento presente e então ensina a cultivar este reconhecimento até que ele permeie o núcleo do nosso ser.2 (Minguyr Rimpoche-alegria de viver)

 Estas qualidades não podem ser encontradas em nenhum outro lugar a não ser no momento presente e dentro de nós mesmos, pois somente estando conscientes e atentos é que podemos mudar aquilo que precisamos mudar em nós, somente com a percepção consciente é que realmente e de fato podemos nos tornar seres humanos melhores e mais soberanos sobre a nossa ainda falha e incauta natureza humana, e assim, atentarmos que temos uma saída interior, viável e eficaz de auto observação, de expanção e tomada de consciência que certamente poderá nos guiar para a definitiva jornada à perfeição humana.

 

Referências

1. Danucalov, Marcello Árias; Simões, Roberto Serafim. Neurofisiologia da Meditação. Editora Phorte, 2006.494p

2. Mingyur,Yongey. Alegria de viver. Editora Campus, 2007.263p

3. O Papel da Consciência na Meditação - Radha Burnie Burnier.

Disponível em https://www.sociedadeteosofica.org.br/artigos.asp?item=789&idioma). Acesso em 18 de maio de 2013.

4. Mingyur,Yongey; Swanson, Eric. Joyful Wisdon-Embrancing Change and finding freedom.Tree River Press, N.York, 2009.283p